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Metodologia

Threat Modeling Express: o método que usamos nos nossos workshops

Como engajar engenharia e produto, mapear ativos críticos e sair de uma sessão de duas horas com ameaças, controles e backlog priorizado.

Scanner encontra vulnerabilidade. Threat modeling encontra ameaça. A diferença parece sutil, mas é ela que separa uma lista técnica de achados de uma conversa que o negócio entende e prioriza.

Este artigo documenta o Threat Modeling Express, o formato ágil que usamos nos nossos workshops com times de produto e engenharia. Não tem segredo aqui: é o método completo, do engajamento do time até o backlog priorizado. Publicamos porque acreditamos que metodologia boa circula, e porque time que entende o método chega no workshop pronto para trabalhar.

O que é threat modeling

Threat modeling é o processo de identificar ameaças, vulnerabilidades e contramedidas em um sistema, pensando como um atacante pensaria. Enquanto ferramentas de segurança detectam falhas técnicas pontuais, a modelagem de ameaças olha o sistema inteiro e conecta cada risco ao impacto que ele causa no negócio.

Essa conexão com o negócio é o que faz a prática valer o investimento. É mais fácil um executivo entender que existe risco de perda financeira por manipulação de dados do que entender que um Insecure Deserialization pode levar a um RCE. A ameaça fala a língua de quem decide orçamento. A vulnerabilidade fala a língua de quem corrige. Threat modeling traduz entre as duas.

As metodologias tradicionais

O mercado consolidou várias abordagens ao longo dos anos, cada uma com seu foco:

  • STRIDE: categorias de ameaça (spoofing, tampering, elevação de privilégio etc.), criada pela Microsoft em 1999.
  • PASTA: sete etapas que alinham objetivos de negócio com requisitos técnicos.
  • Trike: ênfase em auditoria e gerenciamento de risco.
  • VAST: integrada ao DevOps, com diagramas de fluxo para modelagem ágil.

Todas funcionam. O problema é que, em times ágeis, processos longos morrem na segunda sprint. O Threat Modeling Express simplifica o processo tradicional para caber no ciclo de desenvolvimento: sessões curtas, colaborativas, que se repetem conforme o produto evolui. É a abordagem que o Threat Modeling Manifesto defende: valores e princípios acima de cerimônia.

O processo em seis passos

1. Engajamento antes do diagrama

O workshop começa antes do workshop. Threat modeling só funciona quando o time de desenvolvimento participa de verdade, porque é ele que conhece o sistema. Engenheiros, designers e PMs precisam entender por que estão ali, e o papel de quem facilita é criar esse contexto, não impor processo.

Meu papel como AppSec é fazer os devs brigarem por segurança, assim como hoje eles brigam pelo VS Code ser melhor que o Vim.

Quando o time briga por segurança, os controles definidos no fim da sessão viram backlog de verdade, não planilha esquecida.

2. Data flow

O primeiro artefato é o diagrama de fluxo de dados: por onde os dados entram, transitam e ficam em repouso. Quem desenha é o time, com a ferramenta que o time já usa. Excalidraw, draw.io, Miro ou MermaidJS, tanto faz. O tempo da sessão é para modelar ameaças, não para aprender ferramenta nova.

Duas regras práticas:

  • Foque nos fluxos principais. Dá para detalhar cada endpoint, mas numa abordagem express o objetivo é capturar os fluxos mais críticos.
  • Restrinja o escopo ao que o time pode mudar. Mapear processos fora do controle direto da equipe gera ameaça sem dono.
Diagrama de fluxo de dados com usuário, aplicação mobile, API e banco de dados
Data flow de exemplo: usuário, aplicação, API e armazenamento, com os fluxos principais marcados.

3. Ativos críticos

Com o fluxo desenhado, o time marca o que precisa de proteção extra. A pergunta é simples: se isso vazar ou for adulterado, qual o tamanho do estrago? A lista deve ficar curta, só com o que realmente exige controle específico.

Data flow com ativos críticos A1, A2 e A3 anotados nos pontos onde os dados ficam em repouso
Ativos críticos anotados no data flow (A1, A2, A3), nos pontos onde os dados ficam em repouso.

Num sistema típico, os ativos que aparecem primeiro:

  • A1 · Token de sessão. É o mecanismo de autenticação e autorização do usuário. Quem obtém o token age em nome do usuário sem restrição.
  • A2 · Dados pessoais. Nome, CPF, dados sensíveis. Alvo comum de ataque e obrigação legal de proteção.
  • A3 · Credenciais de banco de dados. Exposição compromete integridade e confidencialidade de tudo que está armazenado.

Anote onde cada ativo fica em repouso no diagrama. Se houver tempo, marque também os pontos de trânsito.

4. Atores de ameaça

Agora o time veste o chapéu do atacante. Antes de listar ameaças, vale definir quem ataca, porque cada ator tem motivação e capacidade diferentes, e isso muda quais ameaças fazem sentido para o seu produto:

  • Cibercriminosos: ganho financeiro, ransomware, phishing.
  • Atores patrocinados por estados: espionagem e sabotagem.
  • Hacktivistas: causas sociais ou políticas.
  • Curiosos: atacam por diversão ou aprendizado, e causam dano mesmo assim.
  • Insiders: acesso privilegiado, intencional ou acidental.

E tem os atores que só aparecem quando o time conhece o próprio produto. No Brasil, fãs de reality show que organizam mutirões de voto são um ator de ameaça real: sistemas de votação da TV aberta processam quase 3 milhões de votos por minuto em momentos de pico. Nenhum framework genérico teria listado esse ator. O time listou. Sobre como pensar atores fora do padrão, vale esta palestra da OWASP Global AppSec 2023.

5. Ameaças

Com os atores definidos, o time percorre o data flow perguntando: por onde esse ator atacaria esses ativos? Cada ameaça é registrada com uma nota de como foi identificada, porque é essa nota que permite reavaliar a ameaça quando a arquitetura mudar.

Data flow com ameaças T1 a T5 marcadas nos pontos de ataque sobre os ativos
Ameaças (T1 a T5) marcadas nos pontos do fluxo onde os ativos podem ser atacados.

No nosso exemplo, cinco ameaças saíram da análise:

  • T1 · Interceptação de dados sensíveis. Identificada ao analisar o fluxo entre cliente e servidor. Credenciais e dados pessoais em trânsito podem ser interceptados, principalmente se a comunicação não estiver criptografada de ponta a ponta, comprometendo a privacidade e a integridade dos dados.
  • T2 · Exposição de token de sessão. O token é o mecanismo de autenticação, então qualquer falha que permita acesso não autorizado a ele resulta em sequestro de sessão: o invasor age no sistema em nome do usuário. Surgiu ao pensar em armazenamento inseguro no dispositivo e transmissão por canais vulneráveis.
  • T3 · Indisponibilidade de serviço. Disponibilidade também é pilar de segurança. Ataques de negação de serviço ou sobrecarga de recursos tornam o sistema inacessível, e o impacto na experiência e na confiança do usuário é imediato, seja o ataque intencional ou falha técnica.
  • T4 · Exposição de credenciais. Má configuração ou proteção inadequada das credenciais de banco e de serviços críticos dá ao atacante acesso direto aos dados. É uma ameaça que, além do dano próprio, serve de porta de entrada para outros ataques.
  • T5 · Acesso não autorizado a dados pessoais. Surgiu da pergunta “quem consegue acessar dados pessoais sem permissão?”. Falhas de controle de acesso ou vulnerabilidades exploráveis levam a violação de privacidade, consequência legal e perda de confiança.

Repare que cada ameaça aponta para um ativo do passo anterior e para um ponto concreto do fluxo. Ameaça genérica (“podem nos hackear”) não vira controle; ameaça ancorada no diagrama vira.

6. Controles

Para cada ameaça, o time define controles técnicos ou processuais. Documente inclusive os que já existem: é isso que dá visão completa da defesa e permite verificar, depois, se o controle continua ativo e eficaz.

Data flow completo com controles C1 a C6 ligados às ameaças que mitigam
O modelo completo: controles (C1 a C6) ligados às ameaças que eles mitigam.

Exemplos do que sai dessa etapa:

  • C1 · TLS pinning. Contra interceptação man-in-the-middle: a aplicação só aceita certificados específicos e válidos.
  • C2 · Criptografia de dados sensíveis em trânsito. Para que dado interceptado seja ilegível e, portanto, inútil.
  • C3 · Armazenamento seguro de tokens. Keychain no iOS, Keystore no Android: áreas criptografadas que dificultam acesso não autorizado.
  • C4 · Rate limiting. Limita solicitações por IP ou origem para sustentar disponibilidade e detectar acesso anômalo.
  • C5 · Gerenciamento de segredos. AWS Secrets Manager ou HashiCorp Vault para credenciais, com rotação e monitoramento de acesso.
  • C6 · Controles de acesso granulares. Menor privilégio: cada usuário ou processo acessa só o estritamente necessário.

Cada controle vira tarefa com dono no backlog. Sem isso, o workshop produz um diagrama bonito e nada muda.

O que fica depois do workshop

O dataflow é o artefato mais visível, mas o valor real está nas anotações de ameaças e controles. Elas são a memória de segurança do produto: antecipam riscos das próximas funcionalidades e registram qual defesa protege o quê. Revisadas a cada mudança relevante de arquitetura, mantêm a segurança evoluindo junto com o sistema.

Para medir se a prática está funcionando, acompanhe ameaças identificadas e mitigadas por ciclo. Em times ágeis, a recomendação é modelar em incrementos pequenos, acompanhando cada funcionalidade nova, com profundidade ajustada à maturidade do time.

O desafio real costuma ser cultural, não técnico. Programas de security champions, sessões hands-on e a postura de facilitar em vez de policiar ajudam a transformar a sessão de threat modeling em hábito do time, não em auditoria trimestral.

Para fechar

Threat modeling é das poucas práticas de segurança que melhora a comunicação entre engenharia e negócio em vez de criar atrito. Quanto mais cedo entra no ciclo de desenvolvimento, mais barato fica cada risco evitado.

É exatamente esse formato que a gente roda nos workshops de Threat Modeling da eFlag, incluindo fluxos com LLM e agentes. Se quiser ver o método aplicado ao seu produto, fale com a gente.

Este artigo é uma versão revisada do guia publicado pelo nosso fundador, Fernando Guisso, que inclui também os slides da palestra e um mini game para praticar.